Durante muito tempo, eu achei que ler bastante era suficiente.
Eu observava pessoas compartilhando metas de leitura, listas de livros terminados e desafios para descobrir quantas obras conseguiriam ler durante o ano. Aos poucos, comecei a associar uma boa leitora à capacidade de acumular títulos concluídos.
Também entrei nessa lógica.
Até perceber que quantidade e significado são coisas diferentes.
Um livro pode ocupar algumas horas da nossa vida, mas aquilo que encontramos nele pode permanecer por muito mais tempo. Uma ideia pode provocar uma pergunta. Uma história pode mudar nossa maneira de enxergar determinada situação. Um conhecimento pode encontrar aplicação em um momento específico.
Foi então que comecei a olhar para os livros de outra maneira.
A pergunta deixou de ser apenas como criar o hábito de ler e passou a envolver também uma questão anterior: por que estou escolhendo esta leitura?
Afinal, nosso tempo e nossa atenção são limitados.
Criar uma rotina de leitura não precisa significar terminar dezenas de livros por ano. Pode começar com alguns minutos por dia, uma escolha mais consciente e a disposição de descobrir o que uma boa obra pode acrescentar à nossa vida.
Neste artigo, você encontrará algumas estratégias para desenvolver um hábito de leitura de maneira possível, prazerosa e alinhada ao seu momento de vida.
Quando decidimos incorporar um novo comportamento à nossa vida, é tentador começar com uma meta ambiciosa.
“Vou ler um livro por semana.”
“Vou terminar 30 páginas todos os dias.”
“Este ano vou ler 50 livros.”
Para algumas pessoas, metas assim funcionam. Para outras, elas criam uma cobrança que acaba afastando justamente aquilo que deveria se tornar prazeroso.
Se você quer descobrir como criar o hábito de ler, experimente começar com pouco.
Dez ou quinze minutos por dia já podem ser suficientes para estabelecer uma frequência. O objetivo inicial não é provar quanto você consegue ler, mas fazer com que abrir um livro se torne uma ação familiar.
Observe sua rotina: Talvez a manhã seja tranquila; quem sabe você tenha alguns minutos depois do almoço, ou pode ser que prefira ler antes de dormir.
Não procure o horário perfeito. Procure um momento possível.
Quando a atividade cabe na vida real, fica mais fácil repeti-la. E a repetição é mais importante no começo do que a quantidade de páginas.
Existe uma razão para tantas pessoas deixarem livros na mesa de cabeceira, na bolsa ou sobre a escrivaninha.
O ambiente influencia nossas escolhas.
Quando o celular está ao alcance da mão e o livro permanece guardado em uma estante, começar a leitura exige uma decisão adicional. Em um momento de cansaço, essa pequena barreira pode ser suficiente para escolher outra atividade.
Por isso, facilite o primeiro passo.
Deixe o título que está lendo em um lugar visível. Marque a página onde parou. Mantenha uma opção disponível na bolsa para momentos de espera.
Você também pode criar uma associação com um comportamento que já faz parte da sua rotina: ler depois do café, durante uma pausa ou antes de apagar a luz.
Essas pequenas estratégias não parecem importantes isoladamente, mas podem tornar a prática mais acessível.
Outra possibilidade é reduzir as distrações durante alguns minutos. Colocar o celular no silencioso ou deixá-lo em outro cômodo pode ajudar a preservar aquele intervalo.
Existe uma possibilidade que nem sempre consideramos quando tentamos desenvolver um hábito de leitura: talvez o problema não esteja na falta de disciplina.
Talvez você simplesmente esteja escolhendo obras que não despertam seu interesse.
Nem todo livro recomendado por alguém precisa entrar na sua lista. Um best-seller pode ser excelente e, ainda assim, não conversar com você neste momento.
Quando existe curiosidade, começar costuma ser mais fácil.
O que desperta sua atenção hoje? Pense nos assuntos que têm ocupado seus pensamentos.
Você está querendo aprender algo novo? Está vivendo uma mudança profissional? Deseja compreender melhor determinada questão? Procura uma história para relaxar?
As respostas podem orientar suas escolhas.
Também não existe obrigação de permanecer sempre dentro do mesmo gênero. Alternar romance, biografia, ensaio, literatura, desenvolvimento pessoal ou obras técnicas pode tornar a experiência mais interessante.
Uma seleção variada amplia as possibilidades de encontrar algo que combine com cada fase.
E isso é especialmente importante para quem está começando.
Em vez de perguntar apenas “qual é o melhor livro?”, experimente perguntar: Qual livro faz sentido para mim agora?
Existe uma regra informal que acompanha muitos leitores: começou um livro, precisa terminar.
Mas será que essa regra ajuda quem está tentando desenvolver uma rotina?
Nem sempre.
Se uma obra não despertou seu interesse depois de uma tentativa honesta, você pode interrompê-la. Isso não significa que o autor seja ruim ou que aquele conteúdo não tenha valor. Pode significar apenas que você não está no momento certo para aquela leitura. E talvez outro livro seja mais adequado à sua pergunta atual.
Abandonar um livro também pode ser uma escolha consciente.
Quando você insiste em centenas de páginas de algo que não está funcionando, pode começar a associar os livros à obrigação.
Ao se permitir mudar de título, você recupera a possibilidade de escolher.
Isso também ajuda a respeitar seu tempo. Não precisamos terminar tudo aquilo que começamos apenas porque começamos.
Uma rotina saudável de leitura pode incluir descobertas, mudanças de interesse e até algumas tentativas que não deram certo.
O importante é não transformar uma escolha que não funcionou em uma conclusão sobre você mesma.
Não gostar de determinado livro não significa não gostar de ler.
Quando falamos sobre os benefícios da leitura, é comum destacar conhecimento, concentração, vocabulário ou desenvolvimento intelectual.
Esses aspectos são importantes, mas não representam tudo o que uma experiência literária pode proporcionar.
Uma história pode nos aproximar de uma realidade que desconhecemos. Uma biografia pode apresentar uma trajetória diferente da nossa. Um ensaio pode provocar uma pergunta. Um romance pode simplesmente proporcionar algumas horas de descanso.
Isso significa que nem toda leitura precisa produzir um resultado imediatamente mensurável. Ler também pode ser uma pausa
Em uma rotina marcada por notificações, informações e tarefas, algumas páginas podem oferecer um intervalo diferente.
Você não precisa terminar um capítulo com uma grande descoberta.
Pode simplesmente gostar da história; pode se emocionar; pode discordar; pode encontrar uma frase que continuará na sua cabeça durante o dia.
A leitura também pode ampliar nosso repertório justamente porque nos coloca diante de pensamentos que não encontraríamos sozinhos.
Por isso, quando pensamos em hábito de leitura, vale abandonar a ideia de que todo minuto precisa ser produtivo.
Alguns livros ensinam, outros fazem pensar, alguns divertem e existem aqueles que simplesmente fazem companhia.
Todos podem ocupar um lugar legítimo em uma rotina.
Foi nesse ponto que minha relação com os livros começou a mudar.
Passei a prestar mais atenção nas perguntas que estavam por trás das minhas escolhas.
Em vez de pensar apenas “qual livro vou ler agora?”, comecei a perguntar: Por que quero ler este livro?
A resposta pode revelar muito. Talvez exista uma curiosidade, uma necessidade profissional, ou uma questão pessoal. Pode ser que exista um projeto ou uma vontade de conhecer determinada experiência.
Essa reflexão transforma a escolha em algo mais consciente. Você pode fazer estas três perguntas antes de escolher:
1. Por que quero ler este livro?
Identifique a curiosidade ou necessidade que levou você até ele.
2. O que espero encontrar?
Pode ser conhecimento, inspiração, entretenimento, uma nova perspectiva ou simplesmente uma boa história.
3. O que posso fazer com o que encontrar?
Essa pergunta é especialmente interessante em livros relacionados a carreira, desenvolvimento pessoal e propósito.
Ler sobre uma possibilidade é diferente de experimentá-la.
A informação pode abrir uma porta, mas a aplicação depende das escolhas que fazemos depois.
Comece pequeno. Escolha obras relacionadas aos seus interesses, encontre um momento possível na rotina e permita que essa prática cresça naturalmente.
Um hábito de leitura pode começar com dez minutos por dia. Pode acompanhar uma fase de mudança, responder a uma curiosidade ou simplesmente oferecer alguns minutos de tranquilidade em meio à correria.
Não transforme a leitura em uma competição. Você não precisa terminar dezenas de livros para considerar essa prática importante.
Permita-se mudar de título quando uma obra não fizer sentido. Experimente diferentes formatos. Faça anotações quando uma ideia despertar sua atenção. Volte a uma passagem quando quiser refletir sobre ela.
Talvez a pergunta mais interessante não seja:
“Quantos livros consigo ler?”
Mas:
“O que quero encontrar nos livros que escolho?”
Quando uma obra encontra uma pergunta verdadeira, ela pode ampliar repertórios, provocar reflexões e apresentar novas maneiras de olhar para a própria vida.
É nesse encontro entre curiosidade, conhecimento e experiência que a leitura com propósito ganha significado.
Qual livro está conversando com o momento que você está vivendo hoje?
Conte nos comentários.